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3 de junho de 2011

Memórias Do Boi Serapião (Poema)






Este campo,
vasto e cinzento, 
não tem começo nem fim,
nem de leve desconfia 
das coisas que vão em mim. 


Deve conhecer, apenas 
(porque são pecados nossos) 
o pó que cega meus olhos 
e a sede que rói meus ossos. 

No verão, quando não há
capim na terra 
e milho no paiol 
solenemente mastigo
areias, pedras e sol. 

Às vezes, nas longas tardes 
do quieto mês de dezembro 
vou a uma serra que sei 
e as coisas da infância lembro:

instante azul em meus olhos 
vazios de luz e fé 
contemplando a festa rude 
que a infância dos bichos é ... 

No lugar onde eu nasci 
havia um rio ligeiro 
e um campo verde e mais verde 
de um janeiro a outro janeiro 

havia um homem deitado ­
na rede azul do terraço 
e as filhas dentro do rio 
diminuindo o mormaço. 

Não tinha as coisas daqui:
homens secos e compridos 
e estas mulheres que guardam 
o sol na cor dos vestidos 


nem estas crianças feitas 
de farinha e jerimum 
e a grande sede que mora 
no abismo de cada um.

Havia este céu de sempre 
e, além disto, pouco mais 
que as ondas nas superfícies 
dos verdes canaviais. 

Mas, os homens que moravam 
na língua do litoral 
falavam se desmanchando 
das terras gordas e grossas
daquele canavial 

e raras vezes guardavam 
suas lembranças mofinas 
as fumaças que sujavam 
os claros céus que cobriam 
as chaminés das usinas. 

Às vezes, entre iguarias, 
um comentário isolado:
a crônica triste e curta 
de um engenho assassinado. 

Mas logo à mesa voltavam 
que a fome bem pouco espera 
e os seus olhos descansavam 
em porcelanas da China 
e cristais da Baviera. 

Naquelas terras da mata 
bem poucos amigos fiz, 
ou porque não me quiseram
ou então porque eu não quis.

Lembro apenas um boi triste 
num lençol de margaridas 
que era o encanto do menino 
que alegre o tangia para 
as colinas coloridas. 

Um dia, naquelas terras 
foi encontrado um boi morto 
e os outros logo disseram 
que o seu dono era o homem torto 

que em vez de contar as coisas 
daqueles canaviais 
vivia de mexericos 
"entre estas índias de leste 
e as Índias Ocidentais".

.A verde flora da mata 
(que é azul por ser da infância)
habita: os meus olhos com 
serenidade e constância. 

Este campo, 
vasto e cinzento, 
é onde às vezes me escondo 
e envolto nestas lembranças
durmo o meu sono redondo, 

que o que há de bom por aqui 
na terra do não chover 
é que não se espera a morte 
pois se está sempre a morrer:

Em cada poço que seca 
em cada árvore morta 
em cada sol que penetra
na frincha de cada porta 

em cada passo avançado
no leito de cada rio 
por todo tempo em que fica 
despido, seco, vazio. 

Quando o sol doer nas coisas 
da terra e no céu azul 
e os homens forem em busca 
dos verdes mares do sul. 

só eu ficarei aqui 
para morrer por completo, 
para dar a carne à terra 
e ao sol meu branco esqueleto, 

nem ao menos tentarei 
voltar ao canavial, 
pra depois me dividir 
entre a fábrica de couro 
e o terrível matadouro municipal.

E pensar que já houve um tempo 
em que estes homens compridos 
falavam de nós assim: 
o meu boi morreu 
que será de mim? 

Este campo, 
vasto e cinzento, 
não tem entrar nem sair
e nem de longe imagina 
as coisas que estão por vir, 

e enquanto o tempo não vem 
nem chega o milho ao paiol 
solenemente mastigo 
areia, pedras e sol.



                                        (Carlos Pena Filho) 

Um comentário:

  1. Olá,

    Ótimo poema,conheci seu blog no imaginandocriatividade.Já estou te seguindo visite o meu:escritosimorais.blogspot.com.

    Me siga,

    Um grande abraço.

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